quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Trinta anos e trezentos shows internacionais de Jazz e Blues no Brasil. O produtor Herbert Lucas conta como a coisa toda começou

Há 25 anos os discos Mandinga de André Chistovam e Água Mineral do Blues Etílicos inaugurariam o blues no Brasil

O maior bluesman do mundo com o maior produtor de blues do Brasil


Texto: Eugênio Martins Júnior
Fotos: Eugênio  e Cezar Fernandes

Em janeiro de 2006, li naquela revistinha da Folha de S.Paulo que o Bourbon Street Music Club iria trazer ao Brasil o veterano gaitista de blues Charlie Musselwhite e um dos maiores guitarristas de blues de todos os tempos, Otis Rush. Uma verdadeira lenda.
Fui dormir pensando naquilo e no dia seguinte não me contive e liguei para o bar. Pedi para chamar o responsável pela programação e quando ele atendeu o telefone fui logo falando: “Tudo bem, meu nome é Eugênio e quero trazer o Otis Rush a Santos, dá pra fazer?”.
Veja bem, qual é a chance de você fazer uma proposta dessa a alguém que nem te conhece e a pessoa dizer sim?
Pois foi o que aconteceu, o cara do outro lado da linha era o Herbert Lucas, um dos maiores produtores de shows internacionais no Brasil e, nos gêneros blues e jazz, com certeza o maior do país, disse que estava de partida para os Estados Unidos e quando voltasse conversaríamos.
Um mês se passou e fizemos a reunião em um restaurante em Santos. O Otis Rush ficou doente e sua turnê brasileira nunca aconteceu. Nossa primeira parceria foi o show do guitarrista de Memphis, Eric Gales. Só por curiosidade, foi também o primeiro show internacional no Teatro Coliseu de Santos após sua longa reforma. O guitarrista veio acompanhado pelos músicos Fred Sun Walk (guitarra), Papel (bateria) e Ugo Perrota (baixo).
Para quem não conhece o nosso ramo, o fato narrado espelha bem o que é a produção cultural no Brasil: uma eterna busca por oportunidades.
Herbert, macaco velho, não perdeu a chance de pular mais um galho. Eu, novato, já estava fazendo a coisa certa sem saber. Além de cavar “a” oportunidade de ouro, começava a aprender sobre produção com o melhor do ramo.
A entrevista que segue mostra bem o que é a produção musical, uma mistura de sorte, ideias ousadas, coração forte e, acima de tudo, amor a profissão.
Nossa parceria dura até hoje. A Mannish Boy Produções e a Lucas Shows e Eventos, produtora de Herbert dirigida por suas irmãs Thelma e Thais e seu cunhado Roberto, são as responsáveis no Brasil pela artista Shirley King, filha do velho B.B. King.
Herbert Lucas conta com mais de 300 shows de jazz e blues no currículo. Lidou com artistas do calibre de B.B. King, Nina Simone, Ray Charles, Sonny Rollins e mais uma centena de gênios. Participou da criação dos festivais de Rio das Ostras, Búzios, Bourbon Street Fest, Guarujazz, Campos Jazz, Paraty Latino e mais alguns. Um currículo que tão cedo não será batido. Mas Herbert que se cuide, eu já passai da minha centena.


Eugênio Martins Júnior – Como começou na produção?
Herbert Lucas –
Minha família sempre foi ligada em música. Meu pai era cantor amador e meus tios Miguel e José eram cantores de cantinas italianas em São Paulo. A gente vivia em cantinas. Eles tinham um repertório com músicas italianas engraçadas. Meu pai foi para a Segunda Guerra Mundial, mas quando chegou lá a guerra já havia acabado e ele ficou um tempo limpando os estragos na Itália. Lá ele aprendeu não só falar, mas cantar um vasto repertório. Eu sempre gostei de arranhar um violão e um piano. Conheci o Guarabyra que veio morar na rua da minha família na Vila Mariana. Quando passei a tocar em festas e eventos pequenos acabamos ficando amigos. Comecei a trabalhar com o Sá e Guarabira porque, apesar de novos, eu e meus irmãos tínhamos uma agência de publicidade. Fazíamos um anúncio aqui, um cartaz ali, até que um dia assumimos a carreira da dupla na cidade de São Paulo e do Guilherme Arantes no Brasil inteiro. Nessa época tinha um sócio que se chamava Mauro Madaleno.

EM - Quantos anos você tinha?
HL –
Quando conheci o Guarabyra tinha 13 anos e com 15, 16 anos fui trabalhar com eles. Fui para estrada com o Sá e Guarabyra. Logo depois fui morar nos Estados Unidos e Inglaterra, mas sempre quando voltava ia trabalhar com o Sá e Guarabyra, parecia uma sina (risos). Eu chegava passava dois dias e lá estava eu trabalhando com os caras. Entre idas e vindas trabalhei dezesseis anos. Eles faziam o maior sucesso, lembro da primeira grande temporada que nós produzimos. Era a comemoração de dez anos juntos e tinha projeção de imagens, roteiro muito bem escrito, coisas que para a época eram inovadoras. O show fez tanto sucesso que continuamos fazendo quase nos dez anos seguintes. (risos) Comecei uma parceria com o 14 Bis. Ajudei na produção do Secos e Molhados, os Mutantes ensaiavam aqui na Vila Mariana e eu fiquei amigo do Sérgio Dias. Trabalhei com o Zé Geraldo, o Beto Guedes, Renato Teixeira, Walter Franco.

EM – Quando começaram os shows internacionais?
HL -
Tinha afinidade pelo jazz e blues e por ter morado fora falava bem o inglês.Trabalhei numa produtora chamada Status, da família Curan. Eles tinham uma boate muito famosa chamada Viva Maria. Tinha shows internacionais direto. Era o Zé, o Alberto e o Fauzi, que era empresário do Sargentelli. Eles tinham dois conjuntos, o Coisa Nossa e o Super Status Som.
Fiquei responsável pelos shows internacionais e como o mercado eram os clubes trabalhei com Lucho Gatica, Perry Como e outros. Eram turnês de 30 shows em dois meses.
Em 1980 eles trouxeram ao Brasil o Freddy Cole, irmão do Nat King Cole. Era a segunda vez que ele vinha ao Brasil. Quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos fiquei amigo de um cara de lá que era trompetista, o Mike Miller. Inclusive foi ele que me mostrou muito do blues e do jazz.
Por isso que eu entendia muito bem o que eles falavam e por coincidência ambos eram de Atlanta. Acabou que fui contratado para aquela turnê do Freddy Cole e no ano seguinte já estava produzindo o Freddy em todo o Brasil.
Naquela época os clubes de interior é que eram fortes. Todas as coisas boas relacionadas à música aconteciam nos clubes. Hoje tem os Sescs, mas naquela época não tinha. Santos era uma cidade gloriosa, lembro do Atlético, do Caiçara, Ilha Porchat Clube e todos eles faziam shows internacionais nos anos 70 e 80. Teatro de prefeitura também era um bom mercado a ser trabalhado. Isso tudo aconteceu antes do André Chritovam.

Delfeayo Marsalis - Bourbon Fest 2011

EM – Nosso próximo assunto. O rock estava no auge por aqui, como foi a aparição do blues no Brasil?
HL –
Fui parar na gravadora Eldorado como produtor independente. Meados de 80. Levava uns projetos e se interessasse a gente produzia os discos. Então eu estava lá direto, a direção era do António Duncan. A gravadora era bem alternativa e estava entrando pra bater no mercado.
Conheci o André Christovam nessa época porque ele tocava com um amigo em comum, o baterista Alaor Neves. E o André conhecia o João Lara, diretor da Rádio Eldorado e do selo Eldorado. Acabamos levando ele pro selo e chamamos o Flávio Guimarães do Blues Etílicos pra fazer uma participação. O Flávio tinha um disco independente já lançado. Primeiro lançamos o André e depois o Blues Etílicos. Olha só, lançamos os dois discos e coincidentemente acontece o primeiro festival de blues de Ribeirão Preto. E em 1989 só tinham eles pra tocar. Também foi a primeira noite de blues no Free Jazz Festival, com John Lee Hooker. Olha que coisa louca, ninguém combinou nada.
Após três anos, o disco do blues Etílicos já era o disco de blues mais vendido no Brasil, batendo até no B.B. King. Eram LPs, mas quando viraram CDs rolou essa revoluçãozinha do mercado. Fizemos o disco do André no estúdio da Eldorado que era um antigo estúdio de rádio onde eram feitas as gravações com orquestra ao vivo. Tinha piano, um órgão Hammond, umas raridades, na rua Major Quedinho, no Centro de São Paulo. O André queria usar uma sala antiga, equipamentos antigos, microfones antigos. Teve a participação do Roberto de Carvalho, o André havia acabado de participar da turnê da Rita Lee. A produção foi do Alexandre Fontanetti que é meu parceiro até hoje. Era um menino. A gente estava na hora certa e no lugar certo.

EM – Fala sobre o festival de blues de Ribeirão Preto. Lembro que foram dois ônibus cheios de músicos brasileiros e gringos misturados.
HL -
O Cezar (Castanho, organizador do festival) convidou... eu era empresário do André Christovam, o Blues Etílicos fica isolado no Rio porque o grande mercado para o blues era e sempre foi São Paulo e o interior do estado. São Paulo caiu um pouco a partir de 2010, mas o interior continua.
Juntamos todas as bandas em dois ônibus e os gringos ficaram bravos com isso. E o Cezar colocou uma produtora que se chamava Tereza e que não deixava ninguém sair dos ônibus e ela acabou ganhando o apelido de Madre Tereza. (risos)
Imagina você falar isso para os negões americanos. Mas foi uma coisa maravilhosa. Um garoto que tocava violão foi nos camarins e se tornou um blueseiro da pesada. Anos depois, quando fiz a turnê do Buddy Guy, ele foi escolhido pelo próprio para abrir os shows deles no Brasil. Era o Fred Sun Walk.





EM – Tocaram no Free Jazz?
HL –
Tocamos nas primeiras noites de blues. Não existiam outros nomes no Brasil. O Celso Blues Boy era mais rock. Ela não se assumia como blues absoluto. Ele era blueseiro na essência, mas fazia rock. Talvez ele tenha sido o primeiro blueseiro. Olha que coincidência, ele havia tocado com o Sá e Guarabyra na adolescência e foi o Sá que deu o apelido a ele. Surgiu o Celso Blues Boy que veio a ser a lenda do blues nacional. Veja bem, o Celso já vinha tocando há muitos anos antes do André, mas ele não se assumiu como blues nem fez esse marketing. Acho que oficialmente o André terá sempre o título de pioneiro.

EM – E após essa avalanche, porque o blues praticamente sumiu? Na sua opinião, o que aconteceu?
HL –
Vou te contar uma história engraçada. Após alguns anos, em 1991, eu estava em uma turnê enorme com o Blues Etílicos, a coisa estava tão badalada que encontrei uns malucos fazendo uma temporada de blues, meio que seguindo os nossos passos, estudando as casas, querendo construir um bar de blues. Eram os donos do Bourbon Street Music Club, Luiz Fernando Mascaro e o Edgar Radesca, que acabaram inaugurando o bar em 1993 com o B.B. King. Fui trabalhar lá em 1995. Acompanhei toda a saga da obra que não terminava nunca. Era o sonho do Luiz Fernando que foi para New Orleans e se apaixonou por blues, jazz, soul, música em todos os lugares, na rua, no barco, no supermercado, nos botecos, toda a cena musical negra, depois passou a ser do Edgar. Estou lá há 18 anos.

EM – Faz ideia de quantos shows de blues e jazz você já produziu?
HL –
Contei até o número 300. Incluindo grandes lendas: Buddy Guy, Koko Taylor, B.B. King que é o nosso grande padrinho, Lonnie Brooks. O primeiro show que me chamaram pra fazer foi do Kinsey Report, do Donald Kinsey. Ele era muito famoso porque introduziu a guitarra de Chicago no reggae e criou aquele riff da música Johnny B. Good do Peter Tosh. Depois fizemos uma turnê com o gaitista Sugar Blue. Fiz shows com as praticamente iniciantes Diana Krall, Jane Monheit e Norah Jones e com as clássicas Betty Carter, Shirley Horn, Dianne Reeves, Diane Schuur e Dee Dee Briedgewater. Recebemos artistas fantásticos, Pharoah Sanders, Roy Hargroove, Terence Blanchard, Kenny Garret, Wynton Marsalis, Nicolas Payton, Delfayo Marsalis, Irving Mayfield, Leroy Jones. Gaitistas do blues quase todos, Charlie Musselwhite, Sugar Blues, Rod Piazza, Willian Clarke. Todo o time de veteranos de Chicago e as revelações de um novo selo do o Top Cate o Antoine’s, ambos do Texas. Trabalhei no Tim Festival durante anos, produzi o grande Sonny Rollins.
Em 1995 passei a fazer as produções das turnês grandes do Bourbon Street. Produzi o Ray Charles no Parque do Ibirapuera que foi um recorde absoluto de público, foi no dia 11 de junho, se não me engano dia dos namorados. Foi um dia maravilhoso e o Ray foi a primeira grande produção que eu fiz com o Bourbon Street.

EM – Você e o Edgar vão todos os anos ao festival de New Orleans para escolher as atrações para o Bourbon Fest fale como é feita essa seleção?
HL –
Exatamente há 18 anos. Esse vai ser meu 19° ano. Mesmo antes de trabalhar fixo no Bourbon já havia ido dois anos. É o maior festival realizado no mundo, mas as pessoas não falam tanto, chama-se New Orleans Jazz and Heritage Festival. São doze palcos, sete dias de festival e mais de 500 atrações. Tem o palco do jazz moderno, jazz tradicional, dos sons regionais como o zydeco, cajun, country da Louisiana, do blues, do funk, do reggae e o palco do pop e rock que chama mais de 50 mil pessoas. Tem o palco gospel que quando você quer zerar o que ouviu no festival vai pra chorar um pouco. Quem toca lá são os corais das igrejas locais e é um show feito para as comunidades. Então as comunidades fazem a segunda e terceira vozes na platéia. Me arrepio só em falar.
Além de a cidade ter sido a inspiração pra fazer o bar Bourbon Street, o festival foi a nossa inspiração pra fazer o nosso festival em comemoração aos dez anos da casa. Fui o incentivador disso. A gente traz um gostinho do que foi o festival naquele ano. Mesmo não tendo muito acesso a alguns artistas, apesar de sermos sempre bem recebidos, vemos os shows que funcionam. Tem muita gente que é famosa, mas não faz um bom show e o que a gente quer é música boa com diversão boa. Às vezes a trazemos um show de jazz cabeça, mas que o show é ótimo.

Produzindo um festival - 2011 
(abra a foto clicando em cima)

EM – Além do blues e do jazz você participa de megaturnês como Iron Maiden, Amy Winehouse, Joss Stone, foi convidado pra trabalhar no Rock In Rio. Fale um pouco sobre esse lado.
HL –
Começou justamente por trabalhar com produção e falar muito bem o inglês e ser tradutor bilíngüe. Falo a linguagem dos músicos. No 150 Night Club conheci muitos artistas e gente que trazia shows internacionais. Passado algum tempo, já trabalhando no Bourbon fiz o Spyro Gyra, o Yellow Jackets, a turnê do Take 6 e cai na estrada pra fazer mais trabalhos como free lancer. Nos anos 80 trabalhei com o Muniz, um dos maiores produtores de São Paulo, que depois foi diretor da Time for Fun e depois foi trabalhar para a XYZ. Com ele fiz o Billie Paul, o Rick Wakeman. Trabalhei na turnê do Queen com o Manoel Poladian. Sempre assim, como contratado pelo dono da turnê.
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EM – Qual foi o show mais estranho em todos esses anos?
HL –
Entre os brasileiros, o show mais inusitado foi em Porto de Galinhas. Em uma época em que o blues não estava tão badalado, acho que em 1994. Não tinha estrutura nenhuma, em uma praia quase deserta no litoral de Pernambuco. O primeiro festival que participei foi em Goiânia, já com a banda local The Not Yet Famous Blues Band. Estavam o Blues Etílicos e o Fred Sun Walk. Também foi bem inusitado porque foi no quartel general do sertanejo.
Entre os internacionais fiz a Nina Simone, um dos maiores clássicos da história da música, ela estava exilada e isolada na França, ficou vinte anos sem ir aos Estados Unidos. Então, por causa das complicações dessa turnê da Nina, que por si só já daria um livro, vários produtores passaram a me convidar a produzir artistas complicados. Fiz o Guns N’ Roses com o loki do Axl Rose, a Lauryn Hill e a Amy Winehouse. Fiz a Shakira, ela é muito profissional, mas tinham uns gringos que se achavam o máximo e só atrapalhavam. Outro complicadíssimo foi o Freddy Mercury no primeiro Rock in Rio. Mais uma vez por conta do meu inglês fui para participar de uma entrevista e o Freddy naquela época vivia cada minuto da vida dele. Não parava nunca. Uma que eu vi de perto, mas não participei foi a dos Rolling Stones. Meus amigos viviam perdendo o Keith Richards no Rio de Janeiro. (risos)
Na Inglaterra participei da turnê do álbum Graceland do Paul Simon e por implicações políticas, o Mandela estava preso naquela época, os africanos não podiam sair do hotel. Só eles fugiam por todos os lugares possíveis para conhecer Londres. Fiquei dez dias em Londres e dez dias viajando com o Graceland.    

EM – E como surgiu a Lucas Shows?
HL –
Uma hora resolvi fechar a H2 Produções cujo foco era empresariar artistas e reabrir a Lucas Shows, que estava fechada por causa do meu volume de trabalho no Bourbon Street. Reabri com outros irmãos envolvidos. Ano que vem faz dez anos.


EM – Você é o road manager do B.B. King desde as primeiras vezes que ele veio ao Brasil. Como ele é e como é esse trabalho?
HL –
Desde a primeira turnê até essa última, mudou o empresário, agente e o produtor, só nós é que não mudamos. Isso é muito legal, prova que ele é leal às pessoas que gosta. Óbvio que o B.B. King quando tocava em pé tinha menos problemas. Quando começamos com ele há vinte anos, ele tinha 68 anos, já era um senhor. Outra coisa é que ele sempre tocou muito, mas o cachê dele ficava entre os médios. Nos últimos anos o cachê cresceu porque ele passou a fazer menos shows e hoje ele está no médio pra grande.
Depois de tantos shows ele virou um amigo, encontrei-o em New York, no Mississippi, New Orleans. Na última vez que nos encontramos em New Orleans aconteceu uma coisa engraçada. Ele chegou com aquele ônibus de turnê maravilhoso, com DVD, ar condicionado, onde ele adora receber as pessoas. Fui lá e ficamos conversando e por incrível que pareça, o apresentei a vários músicos famosos. O Trombone Shorty, o Leroy Jones queriam muito conhecer o B.B. King e sabiam que eu o conhecia. Então eu e o Edgar passamos horas conversando com ele. Mas ele iria tocar no festival e fizeram a introdução e tal e ele disse em inglês que era muito bom estar lá de novo e por isso eu falo pra vocês o meu sincero “obrigado”. Ele confundiu pensando que estava no Brasil. (risos).

EM – Como vê a cena hoje do blues brasileiro que você ajudou a criar em relação à cena atual?
HL –
Digamos que estamos na terceira geração. Quando você produz e participa de um trabalho que você leva pra uma gravadora e consegue convencer as pessoas investirem, posso dizer que ajudei a propagar e não criar. O blues já foi melhor economicamente. Tinha menos artistas e conseguíamos fazer mais shows. Na capital, o blues caiu, mas também acho que não cai mais do que isso. Eu fazia temporada com o Blues Etílicos de quatro e cinco dias, com Sugar Blue, Blues Jeans, Big Allanbik a mesma coisa. Hoje conseguimos fazer no máximo dois shows. Mas há vários botecos e pubs que continuam fazendo blues e festivais. Nos primeiros cinco anos as pessoas ficaram bem curiosas, mas o blues voltou a ser como é em todos os lugares do mundo. Um som alternativo, do segundo pro terceiro time. Mesmo nos Estados Unidos a renovação do gênero é lenta. Eles têm grandes guitarristas, mas os maiores continuam sendo os tradicionais. Você vê o Joe Louis Walker e o novato Robert Randolph que fazem shows bem bacanas, mas nenhum deles atingiu a popularidade de Buddy Guy e B.B. King.

EM – Todos falam que o Rock In Rio é um marco na produção de shows no Brasil. Como está o profissionalismo da produção brasileira hoje em relação à época que você começou?
HL –
O que mudou muito é que os artistas só vinham em final de carreira. Hoje os caras estouram nos Estados Unidos e no ano seguinte estão vindo pra cá. Realmente o Brasil virou um mercado para nomes de todos os tamanhos. Venho da época que havia o contra regra e o empresário que fazia de tudo. Cuidava do som, detalhes de camarim, locais para o show, eram todos os profissionais em um. Isso melhorou demais. Hoje tem o stage manager (cuida do palco), o personal manager (cuida só do artista), band manager (cuida da banda), road manager (gerente de turnês). Mas ainda falta muito material humano porque o mercado cresceu muito, principalmente Brasil adentro. Você percebe que os sertanejos se organizaram de uma maneira muito boa, têm suas próprias estruturas de som, luz palcos maravilhosos, projeção de imagens 3D. Acho que é o grupo mais organizado do país.

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